Aula 18 - Prova Final (turmas manhã e noite)

01) (OAB – Exame n. 134) Caio ajuizou ação de usucapião sobre coisas móveis contra Sílvio e a companhia de seguros Delta, objetivando que fossem declarados, por sentença, a propriedade e o domínio do autor sobre o veículo automotor que adquirira de Júlio, no dia 1.º de março de 1993. Afirma o autor que o seu antecessor teria adquirido o veículo em 1.º de julho de 1990 e que, portanto, há mais de três anos vem dando continuidade à posse do antecessor, como adquirente de boa-fé, de forma mansa, pacífica e ininterrupta. A companhia Delta alegou, em sua defesa, que o veículo fora furtado.  Considerando essa situação hipotética, defenda, na condição de advogado de Delta, a posição de que veículo furtado não pode ser adquirido por usucapião. 
Padrão de resposta:  Para se usucapir bem móvel é preciso que sejam satisfeitos os pressupostos para a aquisição do domínio; possuir como sua, sem interrupção, nem oposição, durante três anos coisa móvel, baseado em justo título e boa-fé. No presente caso, o advogado da empresa ré pode alegar que inexiste posse de objeto de furto, pois estes não são passíveis de serem adquiridos com ânimo de dono. Sobre o bem objeto de furto não se reconhece que se possa exercer posse justa, já que a qualquer momento pode-se perder o bem pela descoberta do registro falso apresentado fraudulentamente para fins de alienação. A posse foi transmitida de forma precária, excluindo a intenção de possuir a coisa como própria. De acordo com o disposto no artigo 1203 do Código Civil, mantém a posse, salvo prova em contrário, o mesmo caráter com que foi adquirida. Se o veículo é objeto de furto, continua ostentando condição precária, pelo que injusta é a posse de quem quer que a detenha, mesmo se decorrido o lapso temporal necessário à usucapião ordinária.

3) (OAB – Exame n. 132) Sebastião concede – por ato inter vivos – o direito real de usufruto de uma bela casa que possui no Guarujá às suas tias: Joana e Roberta, por quem nutre grande afeto. Titulares desse direito real, Joana e Roberta passam a frequentar constantemente o referido imóvel, quase todos os finais de semana e feriados. No ano seguinte, Sebastião (nu-proprietário) falece, deixando um filho, Sebastiãozinho, que não tem a menor simpatia pelas suas tias-avós. Dois anos depois, falece Joana. Roberta, sua cliente, deseja saber se ela passa a ser usufrutuária de todo o imóvel ou se a parte do usufruto que correspondia a Joana passou para Sebastiãozinho, consolidando metade da propriedade nas mãos deste. O contrato que instituiu o usufruto nada diz a respeito. 
Padrão de resposta: O art. 1.411 do Código Civil responde claramente a pergunta dizendo que nesse caso não há direito de acrescer e a parte que cabia à usufrutuária falecida é incorporada no patrimônio do nu-proprietário, que vira então proprietário pleno do bem naquela fração, continuando a ser nu-proprietário da outra metade.

4) (OAB – Exame n. 123). Um imóvel encravado vale-se de uma servidão para ter acesso à via pública. Essa servidão foi contratada entre os proprietários do prédio encravado (dominante) e do prédio serviente, por escritura pública, registrada no Registro Imobiliário. Ocorrendo o desencravamento do imóvel dominante, pela abertura de acesso à via pública, cessa o direito à servidão de trânsito ou à passagem forçada? Cuida-se de servidão de trânsito ou de passagem forçada? Justifique a resposta, dando exemplos. 

Padrão de respostas: Mesmo com o desencravamento do imóvel não cessa a servidão de trânsito por que não se cuida de passagem forçada. Se fosse passagem forçada, que existe como medida judicial de desencravamento de imóvel, este desencravamento aconteceria, com o acesso posterior à via pública. A servidão de trânsito nasce, como servidão, do acordo de vontade entre os proprietários do prédio encravado (dominante) e do prédio serviente. Poderia este acordo ser modificado por condição resolutiva do desencravamento; mas tal não consta dele.

Questão 01
Diante dos problemas registrais enfrentados no Brasil, e a par da proposição de novos modelos, faz-se necessário conhecer os programas de regularização já implantados, de modo que se compreendam as possibilidades imediatas de solução de problemas já tentadas. Dentre tais programas indique ao menos duas soluções para a ausência de registro, definindo os institutos, dando-lhes a fundamentação legal e as principais características.
Deverão ser elencadas duas dentre as seguintes soluções, com definição, fundamento e principais características: (a) Concessão de direito real de uso (o estatuto da cidade e seus instrumentos, MP 2.220, MP 2.92); (b) Concessão especial para fins de moradia; (c) Superfície; (d) Usucapião coletiva ou (e) Cessão de aforamento gratuito.

Questão 02
João e Antônio possuem propriedades de faixas de terras confrontantes que fazem leito para um rio. Certa feita, uma faixa de terra da parte pertencente à João se deslocou, por força natural abrupta, juntando-se à parte pertencente à Antonio. Pergunta-se, à luz da legislação civil, quais os efeitos decorrentes do fenômeno descrito bem como os respectivos direitos  e deveres para ambos os proprietários lindeiros.
Trata-se do fenômeno da avulsão, prevista no artigo 1251, do Código Civil. João, por ter perdido faixa de sua propriedade para Antônio, tem direito de pleitear a reparação de danos no prazo decadencial de 1 ano. Decorrido o prazo decadencial sem pedido indenizatório, a propriedade acrescida é acrescida por Antônio, sem necessidade de indenização. Havendo o pedido, da parte de João, no prazo decadencial, e sendo o mesmo recusado por Antônio, deverá este concordar que João providencie a remoção da parte acrescida em sua propriedade (obrigação de fazer).

Questão 03
Odete adquiriu determinado lote íngreme. A entrada se dá pela parte alta do imóvel, por onde chegam a luz e a água. Iniciadas as obras de construção da casa, verifica-se que, para realizar adequadamente o escoamento do esgoto, as tubulações deverão, necessariamente, transpassar subterraneamente o imóvel vizinho limítrofe, de propriedade de Onésimo. Não há outro caminho a ser utilizado, pois se trata de região rochosa, impedindo construções subterrâneas ou qualquer outra medida que não seja excessivamente onerosa. De posse de parecer técnico, Odete procura por Onésimo a fim de obter autorização para a obra. Sem justo motivo, Onésimo não consente, mesmo ciente de que tal negativa inviabilizará a construção do sistema de saneamento do imóvel vizinho. Buscando um acordo amigável, Odete propõe o pagamento de valor de indenização pela área utilizada, permanecendo a recusa de Onésimo.
Considere que você é o(a) advogado(a) de Odete. Responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso.
a) Há alguma medida judicial que possa ser tomada em vista de obter autorização para construir a passagem de tubulação de esgoto? 
b) Considere que houve paralisação da obra em razão do desacordo entre Odete e Onésimo. Há alguma medida emergencial que possa ser buscada objetivando viabilizar a construção do sistema de saneamento?
a) O examinando deverá identificar que a legislação civil prevê que o proprietário deverá tolerar a passagem através de seu imóvel, entre outros, de tubulações e condutos subterrâneos de serviço de utilidade pública, na forma do art. 1.286 do CC. Cabe a propositura de ação de obrigação de fazer com base no art. 461 do CPC, fundada no art. 1.286 do CC.
b) Sim, na medida judicial de obrigação de fazer, a legislação previu a possibilidade de concessão de medida liminar na forma do § 3º e seguintes do art. 461 do CPC, cabível multa pelo descumprimento da medida liminar. Outra medida judicial aplicável à hipótese é a concessão de tutela antecipada na forma do art. 273 do CPC, notadamente em seu § 3º.

Questão 04
Claudio, solteiro, maior e capaz, proprietário de um apartamento, lavrou, em 2004, escritura pública por meio da qual constituiu usufruto vitalício sobre o referido imóvel em favor de sua irmã, Daniela, solteira, maior e capaz. Em seguida, promoveu a respectiva averbação junto à matrícula do Registro de Imóveis. Em 2005, Daniela celebrou com Samuel contrato escrito de aluguel do apartamento pelo prazo de um ano. Concluído o prazo, Samuel restituiu o imóvel a Daniela, que passou a ocupá-lo desde então. Em janeiro de 2011, Claudio veio a falecer sem deixar testamento, sendo único herdeiro seu filho Rafael, solteiro, maior e capaz. Diante disso, Rafael procura Daniela, a fim de que ela desocupe o imóvel.
Diante da situação descrita, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso.
a) Poderia Daniela ter alugado o apartamento a Samuel?
b) Está Daniela obrigada a desocupar o imóvel em razão do falecimento de Claudio?
a) Sim, de acordo com o artigo 1393, CC. Isso porque Daniela é usufrutuária do aludido imóvel e, portanto, pode transferir o seu uso temporariamente a terceiros por meio de contrato de aluguel.
b) Não, de acordo com o artigo 1410, incisos I ou II, CC. O usufruto permanecerá em favor de Daniela, passando Rafael a ser o nu-proprietário. De acordo com o artigo 1410, I, CC, o falecimento do usufrutuário que é causa de extinção do usufruto, e não o falecimento do nu-proprietário.

Questão 05
João e Maurício são proprietários e moradores de imóveis vizinhos, situados na Cidade do Rio de Janeiro. Embora o seu imóvel disponha de acesso próprio à via pública, há mais de vinte anos João atravessa diariamente o terreno de Maurício para chegar ao ponto de ônibus mais próximo da sua moradia, pois esse é o trajeto mais curto existente. Ademais, o caminho utilizado por João é pavimentado e conta com sistema de drenagem para as águas pluviais. Além disso, na cerca que separa os dois imóveis, há uma porteira, de onde tem início o caminho. Determinado dia, Maurício decide impedir João de continuar a atravessar o seu terreno. Com esse intuito, instala uma grade no lugar da porteira existente na cerca que separa os dois imóveis. Inconformado, João decide consultar um advogado. Na condição de advogado(a) consultado(a) por João, responda aos itens a seguir.
a) Tem João direito a constranger Maurício a lhe dar passagem forçada, de modo a continuar a usar o caminho existente no terreno de Maurício?
b) Independentemente da resposta ao item anterior, pode João ingressar em juízo para que seja reconhecida a aquisição de direito real de servidão de passagem, por meio de usucapião?
a) A resposta é negativa, tendo em vista que, nos termos do Art. 1.285 do Código Civil, o direito à passagem forçada assiste apenas ao dono do prédio que não tiver acesso a via pública. No caso descrito no enunciado, resta claro que o imóvel de João tem acesso próprio à via pública.
B) A resposta é afirmativa, uma vez que se tem, no caso, uma servidão de trânsito, que proporciona utilidade para o prédio dominante de João e grava o prédio serviente pertencente a Maurício. Além disso, encontram-se reunidos os requisitos estabelecidos no Art. 1.379 do Código Civil, caput e parágrafo único, para a aquisição de direito real de servidão por meio de usucapião. A servidão é aparente, tendo em vista a presença de obras exteriores (pavimentação, sistema de drenagem e porteira). De outra parte, houve o exercício contínuo e inconteste da servidão por vinte anos (prazo estabelecido no Art. 1.379, parágrafo único, do Código Civil).

Questão 06
Roque Salvador, proprietário e morador da unidade n. 150 do Condomínio Aliança, é dado ao exacerbado alcoolismo e frequentemente é encontrado nas escadas do prédio em desalinho, bem como desfalecido nos elevadores, expelindo vômito e dejetos. Ante tal fato, o condomínio, através de seu síndico, convoca uma Assembleia Geral Extraordinária em cuja pauta destina a aplicação do constrangimento de até dez vezes a taxa condominial ao proprietário da ‘unidade 150', ante reiterado comportamento antissocial, gerando incompatibilidade de convivência com a sociedade condominial já desgastada em decorrência de tal comportamento.
A assembleia por 3/4 (três quartos) de seus condôminos restantes, excluindo assim o condômino do ‘apartamento 150', que convocado e presente à assembleia defendeu-se alegando que haveria de mudar o seu comportamento, aplicou no ato assemblear a multa com fundamento no artigo 1.337, parágrafo único, de dez vezes o quantum da contribuição condominial. A multa foi paga, mas o condômino prosseguiu em seu exacerbado alcoolismo, e até mesmo agudou este comportamento antissocial. O condomínio ingressa com pedido de tutela jurisdicional antecipada, colimando a exclusão do condômino do condomínio, trazendo inequívoca prova dos fatos ocorridos, demonstrando a verossimilhança das alegações e preenchendo todos os demais pressupostos legais exigidos (artigo 273, do CPC), requerendo a exclusão do condômino daquele condomínio. Responda fundamentadamente se é mesmo possível a expulsão do condômino antissocial e, em caso afirmativo, quais os cuidados deveria o condomínio tomar para garantir a sua validade e efetividade.
(...)
Questão 07
Sebastião concede – por ato inter vivos – o direito real de usufruto de uma bela casa que possui no Guarujá às suas tias: Joana e Roberta, por quem nutre grande afeto. Titulares desse direito real, Joana e Roberta passam a frequentar constantemente o referido imóvel, quase todos os finais de semana e feriados. No ano seguinte, Sebastião (nu-proprietário) falece, deixando um filho, Sebastiãozinho, que não tem a menor simpatia pelas suas tias-avós. Dois anos depois, falece Joana. Roberta, sua cliente, deseja saber se ela passa a ser usufrutuária de todo o imóvel ou se a parte do usufruto que correspondia a Joana passou para Sebastiãozinho, consolidando metade da propriedade nas mãos deste. O contrato que instituiu o usufruto nada diz a respeito.
O art. 1.411 do Código Civil responde claramente a pergunta dizendo que nesse caso não há direito de acrescer e a parte que cabia à usufrutuária falecida é incorporada no patrimônio do nu-proprietário, que vira então proprietário pleno do bem naquela fração, continuando a ser nu-proprietário da outra metade.
Questão 08
Considere-se que Ana tenha constituído uma primeira hipoteca sobre um imóvel de sua propriedade em favor do credor, o banco Y, e que, posteriormente, tenha gravado o imóvel com uma segunda hipoteca, nessa ocasião, em favor do banco Z. Em face dessa situação, como o banco Z pode extinguir o primeiro gravame, para que sua garantia real passe a ser de primeiro grau? Justifique a sua resposta.
De acordo com o artigo 1478 do Código Civil, se Ana não pagar a obrigação garantida pela primeira hipoteca no vencimento, o banco Z pode promover a sua extinção, consignando a importância e citando o banco X para recebê-la e Ana para pagá-la. Se a última não pagar, o banco Z, efetuando o pagamento, ocorrerá a sub-rogação nos direitos da hipoteca anterior. Se o banco X estiver promovendo a execução da hipoteca, o banco Z deverá depositar a importância do débito e as despesas judiciais.